
No dia 7 de fevereiro, Gabriel recebeu seu troféu no Teatro Mario Covas, em Caraguatatuba.
Todos os atletas que completaram as etapas receberam medalhas de participação.
A premiação do ranking é baseada na soma de pontos de todas as etapas, com resultados consolidados e divulgados no site oficial do Circuito Mares.









Gentilmente Gabriel nos deu uma entrevista comemorativa a CIEDEF falando do evento, contando um pouco de sua vida de atleta.
Entrevista com o Campeão:
Pergunta 1 – Quem é Gabriel Lemos quando você olha para a sua própria história?
Resposta:
Eu sou um homem de 27 anos, prestes a completar 28, que carrega uma história de luta desde o nascimento. Eu nasci prematuro, de seis meses, e durante o parto faltou oxigênio, o que resultou na paralisia cerebral, condição que eu tenho até hoje. Mas eu nunca aceitei que isso fosse um ponto final na minha vida. Muito pelo contrário. Eu me fortaleci com a paralisia cerebral. Eu não fiquei paralisado por ela.
Pergunta 2 – Em algum momento você acreditou que não seria capaz de nadar no mar?
Resposta:
No começo, eu não me achava capaz. O mar assusta. Ele é grande, imprevisível e exige muito do corpo e da cabeça. Muitas vezes eu pensei: “Será que isso é pra mim?”. Mas eu sempre fui um cara que gosta de desafios, que gosta de se provar. Eu decidi que nada daquilo ia me prejudicar ou me parar. Eu entendi que o medo fazia parte do processo, não do limite.
Pergunta 3 – O que passava pela sua cabeça quando você saiu da piscina e entrou no mar pela primeira vez?
Resposta:
Foi um misto de medo, respeito e emoção. A piscina era o meu lugar seguro. O mar não. Ali não tinha controle, não tinha borda, não tinha silêncio. Tinha onda, correnteza, frio e incerteza. Mas também tinha liberdade. Quando eu entrei no mar pela primeira vez, eu senti que estava dando um passo gigante não só como atleta, mas como ser humano.
Pergunta 4 – Qual foi o maior desafio emocional enfrentado nas águas abertas?
Resposta:
A dúvida. A dúvida sobre mim mesmo. Sobre até onde eu conseguiria ir. Muitas vezes o corpo queria parar antes da mente, e em outras a mente queria desistir antes do corpo. Aprender a lidar com isso foi o mais difícil. Mas cada braçada era uma conversa interna comigo mesmo dizendo: “Você consegue. Continua.”
Pergunta 5 – Houve momentos em que a vontade de desistir apareceu?
Resposta:
Teve cansaço, teve dor, teve frustração. Teve dias em que tudo parecia pesado demais. Mas desistir nunca foi uma opção real. Eu lembrava de tudo o que eu já tinha superado na vida para chegar até ali. Eu pensava: se eu cheguei até aqui, não é agora que eu vou parar.
Pergunta 6 – Como a natação transformou a sua maneira de ver a vida?
Resposta:
A natação me ensinou a ter paciência, disciplina e coragem. Mudou a minha forma de pensar, de agir e de reagir às dificuldades. Dentro da água eu aprendi que nada vem fácil, mas tudo é possível com constância. Fora da água, eu levo essa lição para todos os aspectos da minha vida.
Pergunta 7 – O que o mar representa emocionalmente para você hoje?
Resposta:
O mar é um lugar de conexão profunda. Ele me acalma, me abraça e me desafia ao mesmo tempo. Quando eu estou no mar, eu me sinto inteiro. É ali que eu organizo meus pensamentos, encontro paz e força. A água me entende. O mar faz parte de quem eu sou.
Pergunta 8 – Quando você percebeu que era capaz de competir em alto nível no Circuito Mares?
Resposta:
Quando eu comecei a terminar as provas e perceber que eu não estava só participando, mas competindo. Vieram os top 5, veio a confiança, veio a certeza de que eu podia mais. Cada resultado era uma confirmação de que aquele menino que duvidava de si mesmo estava se tornando um atleta forte e consciente do próprio valor.
Pergunta 9 – O que te move a continuar se desafiando todos os dias?
Resposta:
O desejo de ir além. Eu sempre gostei de desafios. Eu gosto de sentir que estou crescendo, evoluindo e quebrando barreiras, principalmente as internas. Me desafiar é uma forma de me manter vivo, presente e fiel à minha história.
Pergunta 10 – Como foi o seu primeiro contato com a CIEDEF e de que forma surgiu essa oportunidade?
Resposta:
Meu ingresso na CIEDEF aconteceu por meio de indicações muito importantes. O Ricardo Nero que é um amigo desde a minha infância na escola foi o primeiro a falar sobre a CIEDEF, com a minha mãe e, depois disso, nós também falamos por ligação com o Marcelo Camargo (membro da equipe ) para nós e explicou como funcionava o trabalho desenvolvido. Além disso, eu também tive a indicação de um amigo próximo. o Gabriel Takemoto, que já conhecia a instituição e nós estudamos juntos no ensino fundamental me reforçou essa recomendação. Tudo isso foi fundamental para que eu confiasse e desse esse passo tão importante na minha carreira esportiva.
Pergunta 11 – O que representou para você ser campeão geral do Circuito Mares em 2025 defendendo a CIEDEF ?
Resposta:
Foi uma sensação indescritível. Eu me senti extremamente lisonjeado e orgulhoso por ser campeão geral do Circuito Mares em 2025. Representar a CIEDEF nesse título teve um significado ainda maior, porque a instituição acreditou em mim e abriu portas no esporte paralímpico. Foi um orgulho enorme carregar esse nome e mostrar que o trabalho sério e o apoio certo fazem toda a diferença.
Pergunta 12 – De que forma o esporte, especialmente o mar, impactou a sua vida dentro e fora das competições?
Resposta:
O esporte mudou completamente a minha vida. Mudou a minha maneira de pensar, de agir e de encarar os desafios. O mar, em especial, tem uma identificação muito grande comigo. Ele me acalma, me conecta com a água e comigo mesmo. Estar no mar é algo muito especial para mim, me traz equilíbrio, concentração e motivação. É um ambiente onde eu me sinto verdadeiramente em casa.
Pergunta 13 – Como foi a sua trajetória dentro do Circuito Mares até chegar ao alto nível competitivo?
Resposta:
Minha história no Circuito Mares começou de forma gradual. Eu iniciei na natação ainda adolescente, com cerca de 13, 14 anos. No começo, competia em provas de 500 metros no mar. Depois, fui evoluindo para 1.000 metros, em seguida para 2,5 km, até chegar ao ponto de participar de todas as etapas do Circuito Mares. Em várias provas, consegui resultados expressivos, ficando no top 5, o que mostrou que eu estava no caminho certo. Em 2024 eu havia ficado em 5º lugar na premiação geral do circuito mares, mas o meu melhor ano na minha trajetória de águas abertas foi em 2025.
Pergunta 14 – Quem foram as pessoas fundamentais nesse processo de crescimento e quais são seus planos daqui para frente?
Resposta:
Eu sou muito grato ao apoio que recebi ao longo dessa trajetória. O Thiago Gorgatti teve um papel importante, assim como o Alexandre Vieira, que é meu treinador de natação e está comigo no desenvolvimento técnico. Também sou extremamente grato à todos do CIEDEF por ter me aberto as portas no esporte paralímpico. Eu comecei apenas na piscina, fazendo provas curtas, mas senti vontade de me desafiar mais, sair das piscinas e me aventurar nas águas abertas. Graças a Deus, essa decisão vem trazendo grandes resultados, e meu objetivo é continuar evoluindo, competindo em alto nível e representando muito bem a nossa agremiação ..
Pergunta 15 – Que mensagem você deixa para quem convive com uma deficiência e ainda não acredita em si?
Resposta:
Eu diria para não deixar que ninguém defina os seus limites. A deficiência faz parte da nossa história, mas ela não é o nosso fim. Eu me fortaleci com a minha paralisia cerebral. Eu transformei dor em força e medo em coragem. Se eu consegui, muita gente também pode conseguir. Basta acreditar, persistir e nunca desistir de si mesmo.
Pergunta 16 – Quais são seus planos para os próximos anos? Quais metas e competições vc esta colocando na mira!
Resposta:
Vou focar sempre na próxima , mas sempre com atenção especial para as águas abertas.

